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ANÁLISE CRÍTICA “A METAMORFOSE” (FRANZ KAFKA)

Foto do escritor: suzancamillosuzancamillo




O AUTOR


Franz Kafka (1883-1924) nasceu em Praga, capital da República Tcheca e faleceu na Áustria. Era bilíngue (Tcheco e Alemão) e cresceu em uma família judia, marcada pela figura de um pai, cujo nome é Hermann Kafka, autoritário que vivia do comércio. Além do pai e da mãe, Kafka teve cinco irmãos mais novos, dois falecidos ainda na infância, ficando somente três irmãs. Em 1906, se formou em Direito na Universidade Alemã de Praga (Deutsche Karl-Ferdinands-Universität). Depois de formado, chegou a trabalhar na Companhia de Seguros (Assicurazioni Generali) e no Instituto de Seguro de Acidentes de Trabalho, em Praga (1908 a 1917). Em suas horas vagas, escrevia. No entanto, em 1922, devido a problemas de saúde decorrentes da Tuberculose (diagnosticado oficialmente, em 1917), teve que se aposentar do ofício. Em 1911, chegou a dar os primeiros passos como comerciante em sociedade com um de seus cunhados, na intitulada Fábrica de Asbesto de Praga (Prager Asbestwerke Hermann & Co.), porém, esse trabalho não o deixava tempo para escrever. Kafka, apesar de tímido, como o descreviam, tinha uma vida social corrente, com amigos, encontros casuais e mulheres.


Sua inclinação para a literatura foi sendo maior evidenciada na Universidade, pois ali foi tecendo contatos com professores, amigos e disciplinas que se tornaram incentivadores e ajudaram a aprimorar as suas ideias e escrita. Entretanto, Kafka pediu em testamento que seus escritos fossem destruídos. Mas, após a sua morte, seu amigo Max Brod, que conheceu ainda nos tempos da faculdade de Direito, publicou alguns de seus textos. Suas obras são inseridas nas características literárias do modernismo, expressionismo e realismo. A subjetividade de sua escrita envolve o seu passado (infância e família), as suas relações sociais e o contexto histórico marcado por guerras, pessimismo e descrença no futuro. Duas de suas obras mais conhecidas são “A Metamorfose” (1915) e “O Processo” (1925).


A METAMORFOSE


O livro “A Metamorfose” revela uma situação inusitada que gira em torno dos habitantes e visitantes à casa da família Samsa. O personagem principal é Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que se transforma em inseto e vê sua vida, seu trabalho e sua família mudarem drasticamente.


O livro está dividido em três capítulos. O primeiro capítulo apresenta os personagens, situa-os na situação problema e, ao final, revela o ápice com a descoberta da aparência de Gregor como um inseto e as primeiras reações dos personagens. No segundo capítulo a família já está a par da transformação e o texto discorre sobre o fato. Mais uma vez, o ápice ocorre no final com a inesperada e violenta reação da família. O último capítulo mostra as mudanças de comportamento e vida da família em relação a trabalho, dinheiro, ambientes etc. Também mostra um Gregor cansado e, cada vez mais longe da família e de sua vida como humano.


A família de Gregor é composta pela mãe, cujo nome não é revelado. Segundo as características demonstra estar muito preocupada com o filho, porém parece assustada, muito nervosa e tem receio do próprio filho. As situações mais drásticas do livro ocorrem devido às suas reações. O pai, conhecido como Sr. Samsa é um personagem de características apáticas, mas que nas situações dramáticas aparece com o elemento mais violento e autoritário, é o único personagem que não demonstra, desde o início, nenhum sentimento pequeno de pena pelo filho, ao contrário, o tempo todo ele culpa Gregor por qualquer motivo. A jovem irmã Grete, parece ser a pessoa mais próxima a Gregor. Pessoa pela qual ele tem muita admiração quando toca violino. Gregor pretendia ajudá-la em sua vida como musicista. No entanto, tendo em vista essa consideração afetuosa de Gregor, a reação da irmã é uma das mais cruéis ao final do livro.


O gerente da firma em que Gregor trabalha é a primeira visita externa da casa. A mando da chefia, corre imediatamente para a casa de Gregor com o intuito de indagar a sua ausência repentina ao trabalho. Quando descobre o ocorrido é o primeiro a fugir do problema. Apresenta, também, uma criada, cujo nome é Anna e aparece raramente no livro, apenas quando recebe uma ordem ou executa uma função dentro da casa. No segundo capítulo, pede para ser dispensada. Mais adiante, aparecem outras duas em seu lugar, conforme a situação financeira da família. A última, já idosa, parece não temer a nada mais na vida e trata Gregor como mero inseto. E, enfim, os inquilinos, pessoas extremamente rudes, difíceis e mal-educadas. Quando descobrem Gregor, um deles tenta manipular a situação a seu favor para serem dispensados da cobrança do aluguel.


CAPÍTULO I


No início do capítulo I, já nos deparamos com a transformação de Gregor que “[...] ao acordar depois de sonhos agitados, viu-se em sua cama, transformado num monstruoso inseto.” (KAFKA, 2020, p.13). Inicialmente, pensou que era um sonho ou que estava delirando em virtude do cansaço do trabalho fatigante como caixeiro-viajante. Mas, deixa os pensamentos ao lembrar que está atrasado para o trabalho, situação que o fez atentar-se para a realidade em que se encontrava “Eram seis e meia e já se encaminhava para um quarto para as sete. Será que o despertador não havia tocado? Da cama se podia ver que estava bem ajustado para as quatro horas; certamente tinha tocado.” (KAFKA, 2020, p.16).

Aos poucos, incomodava-se com sua nova aparência, de princípio, por exemplo, sua voz parecia “[…] um chiar irreprimível e doloroso […]” (KAFKA, 2020, p.18). Entretanto, ainda não havia caído em si, pensava estar doente “[...] um belo resfriado, doença profissional dos representantes comerciais [...]” (KAFKA, 2020, p.20). No lugar das pernas, várias perninhas curtas e em constante movimento “[...] as numerosas perninhas, que ininterruptamente faziam os mais diversos movimentos e que, além disso, não conseguia dominá-las.” (KAFKA, 2020, p.20). A parte de baixo de seu corpo era “[...] pesada demais para mover […]” (KAFKA, 2020, p.20) e, depois de um forte golpe descobriu que era “[...] a mais sensível de todas.” (KAFKA, 2020, p.21) as partes de seu corpo. Para Gregor, o estado em que se encontrava, era uma situação de terrível desespero.


Esquecendo-se da questão física, estava começando a ficar incomodado com atraso para o trabalho e continuar prostrado na cama. Além do mais, estava ansioso com o que as pessoas estavam pensando (principalmente do trabalho) sobre a situação e a falta de controle de sua nova aparência e, então “[...] não encontrou nenhuma possibilidade de restabelecer a calma e a ordem nessa anarquia […] o mais razoável seria enfrentar qualquer sacrifício [...]” (KAFKA, 2020, p.21). Ao mesmo tempo, tentava manter a mente equilibrada para conseguir resolver o conflito “[...] uma reflexão calma, e bem calma, é melhor que qualquer decisão precipitada.” (KAFKA, 2020, p.22) e “[...] durante um instante ficou tranquilamente deitado, mal respirando, como se esperasse talvez que esse silêncio total restaurasse a situação real e natural das coisas.” (KAFKA, 2020, p.22).


No entanto, o pensamento para com o dever do trabalho o deixava em uma situação de sentimentos dúbios: manter a calma para pensar melhor ou a necessidade desesperada de resolver a situação porque precisava trabalhar e, mais ainda, precisava trabalhar pensando em sua família, mais do que com ele próprio ou dever do trabalho em si. A inquietação com o dever não o deixou pensar com calma como almejava e subitamente “[...] passou a balançar seu corpo em toda a sua extensão, numa direção bem definida, para se jogar para fora da cama.” (KAFKA, 2020, p.22). Nesse momento, começou a refletir sobre o seu novo corpo e como iria resolver a situação estando daquela forma.


Nesse instante, a campainha toca e alguém da firma chega a sua casa, era o gerente. O gerente estava a mando de outra autoridade e, apesar da suposta indisposição de Gregor, em decorrência de seu trabalho, o gerente pensava que ele deveria superar aquele momento, mesmo fatigado. Já era um absurdo a firma enviar subitamente o gerente a casa de Gregor por uma ausência e, mais horrível ainda o fato de que estar indisposto, doente ou qualquer outro acometimento não fosse tão mais importante do que o “dever do trabalho”. Gregor chega a lembrar da simbologia da porta deixada aberta, após a chegada do gerente “[...] como costuma acontecer nas casas em que uma grande desgraça ocorreu.” (KAFKA, 2020, p.32). Sim, todos transformaram o fato numa enorme tragédia familiar.


Nesse momento Gregor passou a refletir sobre a sua representatividade na firma, a relação com os demais funcionários e a desconfiança das autoridades de poder. Foi o estopim e “[...] se atirou com toda a força para a fora da cama.” (KAFKA, 2020, p.24). Subitamente o gerente ouviu sua queda e a irmã foi até a porta para avisá-lo da visita do gerente. Logo em seguida Gregor disse já saber, mas o pai interveio imediatamente explicando que o gerente estava no local para saber por que ele não tinha pegado o trem e que desejava falar com ele pessoalmente. A mãe prontamente, numa tentativa de amenizar a situação, esbravejou que Gregor não estava se sentindo bem, que ele era muito trabalhador “[...] esse rapaz só tem o serviço em mente.” (KAFKA, 2020, p.26), não saía de casa em suas folgas, era muito habilidoso e fazia trabalhos de marcenaria em seu tempo livre. Parece que Gregor só tinha como qualidade o “trabalho”. Ao mesmo tempo, a mãe disse que ele era muito teimoso e que a presença do gerente iria ajudar a família a entender o que se passava com Gregor. Aqui demonstra o fato de que a família não parecia ter contatos muito próximos com Gregor e necessitava de um intermediário.


A mãe de Gregor foi a primeira pessoa da casa a notar seu atraso no trabalho e foi bater em sua porta (trancada), antes mesmo de o gerente chegar. Estava preocupada com a condição de seu filho, possivelmente doente, Caso estivesse doente, estava incomodada em como as pessoas o estavam tratando. O pai e a irmã se deram conta do atraso de Gregor, assim que a mãe de Gregor bateu em sua porta para saber o que estava acontecendo. O pai ficou nervoso e a irmã ficou assustada com a possibilidade de o irmão estar doente. A irmã, em um primeiro momento, estava aflita com a situação em que se deparava e pôs-se a chorar. Mas, Gregor acreditava que a irmã se sentia preocupada, devido “[…] o risco de perder o emprego e porque depois o chefe recomeçaria a atormentar os pais com suas velhas exigências!” (KAFKA, 2020, p.27). No entanto, Gregor ressalta que isso era uma preocupação inútil, já que ele sempre se mostrou disposto a amparar a família. Assim, demonstra, mais uma vez, que a família não o conhecia tão bem.


Gregor não queria que o gerente entrasse em seu quarto e visse a situação. O gerente começou a indagar Gregor e o acusava de estar causando angústia a sua família e de ter se ausentado de sua função no trabalho. Em um momento de total falta de sensibilidade com o outro, ele chega a dizer que apesar de Gregor aparentar ser “[...] um homem calmo e sensato […]” (KAFKA, 2020, p.28), ele estava mostrando “[...] surpreendentes caprichos”. (KAFKA, 2020, p.28). Por esse motivo, ele estava sendo obrigado a desconsiderá-lo e complementa informando “[...] perder toda a vontade de intervir em seu favor. E seu emprego não está, de modo algum, totalmente seguro.” (KAFKA, 2020, p.28), pois não estava sendo produtivo ultimamente. Diante da acusação, Gregor se vê como sendo o próprio motivador de seu atual estado e o principal causador das dores e frustrações alheias. E, por isso, pensa que deveria ter avisado antes sobre não estar se sentindo bem, em vez de continuar trabalhando: “Por que não preveni a empresa! Mas sempre se pensa em superar a doença sem ficar em casa.” (KAFKA, 2020, p.29). A culpa o faz sempre pensar sobre o que os outros pensariam quando avistassem sua nova aparência, como elas reagiriam diante de seu estado. Por isso, pede ao gerente que não jogue os problemas em cima de sua família “Senhor gerente! Poupe meus pais. As recriminações que me fez não são justas; além do mais, ninguém me disse nada a respeito.” (KAFKA, 2020, p.29), já que ele não foi improdutivo. Ele apenas não tinha entregado os últimos pedidos e, portanto, ninguém tinha conhecimento das atividades.


Mais a frente, acredita que ser ajudado seria o melhor. Ter a presença de um médico para ver suas condições e de um serralheiro para abrir a porta, para finalizar a questão ou amenizar os problemas que estava causando aos demais. Mas, e os demais? Preocupavam-se com ele? Estavam preocupados com a saúde mental e física de Gregor? O silêncio dos demais era ensurdecedor e o fez tentar abrir a porta. Nessa tentativa, Gregor esperava incentivos de sua família, o que não ocorreu. Estava orgulhoso de poder abrir a porta sem ajuda, mas era um orgulho solitário.


Logo em seguida, o momento da abertura da porta consta como o final deste capítulo. Aqui se inicia o momento de tensão do livro: as reações dos demais com a visão sobre Gregor. A primeira reação apresentada é a do gerente “[...] mais próximo da porta e tapava a boca com mão, enquanto recuava lentamente, como que impelido por uma força invisível que agia constantemente.” (KAFKA, 2020, p.34). Em seguida a da mãe que “[...] olhou primeiramente para o pai com as mãos juntas, depois deu dois passos em direção a Gregor e caiu em meio de suas vestes espalhadas em torno dela, com o rosto afundado no peito.” (KAFKA, 2020, p.34-35). Em meio a situação dramática da mãe, o pai subitamente raivoso “[...] fechou os punhos num gesto hostil, como se quisesse empurrar Gregor de volta para o quarto, depois olhou ao derredor com ar desvairado, na sala de estar, e se pôs a chorar de tal modo que seu largo peito estremecia.” (KAFKA, 2020, p.35). Em meio ao caos provocado, Gregor faz seu pronunciamento ao Gerente e seus argumentos:

Pode-se não estar em condições de trabalhar, mas essa é a hora certa de se lembrar das realizações anteriores e de pensar que mais tarde, depois da remoção dos obstáculos, se trabalhará com mais zelo e concentração. Sinto-me profundamente obrigado a meu chefe, o que o senhor sabe muito bem. Por outro lado, tenho que cuidar de meus pais e de minha irmã. Estou num aperto, mas vou sair disso trabalhando. Não me torne as coisas mais difíceis do que já são. Tome meu partido na firma! O caixeiro-viajante não é benquisto, sei disso. Todos pensam que ele ganha uma fortuna e que leva uma boa vida. E que não se tem razão particular para derrubar esses preconceito. Mas o senhor, gerente, o senhor que tem sobre as coisas uma visão de conjunto melhor do que o resto do pessoal e mesmo, dito entre nós, uma visão melhor do que a do próprio chefe que, na qualidade de empresário, se deixa facilmente enganar em seu julgamento em prejuízo do empregado. O senhor sabe muito bem que o caixeiro-viajante, que fica fora da firma quase o ano inteiro, pode ser facilmente vítima dos boatos, das causalidades e das reclamações infundadas, contra as quais é praticamente impossível de se defender, uma vez que geralmente não fica sabendo e só consegue fazê-lo quando, exausto, termina uma viagem e já em casa sofre na própria carne as consequências sinistras, cujas fontes não podem mais ser detectadas. Senhor gerente, não vá embora sem me dizer uma palavra que mostre que, pelo menos, numa mínima parte me dá razão! (KAFKA, 2020, p.36-37)

A reação do gerente foi de inquietude, desespero e retirada. Gregor sabia que precisava “[...] reter o gerente, acalmá-lo, convencê-lo e, finalmente, ganhá-lo para sua causa; pois disso dependia o futuro de Gregor e de sua família!” (KAFKA, 2020, p.38). Ele esperava que a irmã fizesse a sua parte, confiava nela, mas ela não estava mais por ali. Ao conseguir cair no chão na posição correta para deter o gerente, sua mãe tomou um susto e, em meio ao escândalo, escolheu ajudar a mãe a se acalmar. Nesse momento o gerente deixa sua casa como um fugitivo, sem resolver a situação e nem dar maiores explicações. Nessa retirada, o pai que aparentemente estava “em cima do muro”, entrou na situação, e em tom e postura ameaçadora empurrou o filho de volta para o quarto, como se quisesse esconder a aberração:

[...] empunhou com a mão direita a bengala do gerente, que a tinha deixado, junto com o chapéu e o sobretudo, em cima de uma cadeira, apanhou com a mão esquerda uma grande jornal da mesa e, batendo os pés e brandindo a bengala e o jornal, se pôs a tocar Gregor de volta para o quarto. (KAFKA, 2020, p.41).

Na trajetória difícil de volta ao quarto, seu pai em nenhum momento o ajudou ou sequer quis ouvi-lo, na tentativa de compreender a sua nova forma de inseto. Violentamente, sem dó, empurra-o de volta ao quarto, machucando seu próprio filho que ficou “[...] sangrando abundantemente.” (KAFKA, 2020, p.43) e fechou a porta. É aterrorizador o final deste capítulo e as reações. Gregor que sempre pensou mais nos outros que em si mesmo estava sendo desprezado, abominado e atacado.


CAPÍTULO II


No seguimento do caso, ao despertar depois do impactante momento em que sua família o descobre como inseto e ferido pelo próprio pai, sua irmã deixa um de seus alimentos prediletos: leite adoçado. No entanto, em mais uma descoberta, o “novo eu” não se deleita com o gosto do leite “[...] afastou-se quase com repugnância da tigela e se arrastou de volta para o meio do quarto.” (KAFKA, 2020, p.46). Do quarto, percebeu que a casa estava estranhamente silenciosa, concomitante, lembrou-se com orgulho que foi ele que proporcionou a família estar naquele ambiente agradável. Nesse instante de exílio em seu quarto, começou a incomodar o fato de que ninguém o vinha visitar, estava se sentindo só. Talvez, precisasse dialogar com alguém sobre o que estava acontecendo, mas o afastamento da família foi instantâneo. A irmã entrou no quarto, mas muito amedrontada:

[...] quando o percebeu debaixo do sofá… ela ficou com tanto medo que, sem poder se controlar, voltou a fechar a porta por fora. Mas, arrependida assim ter agido, logo abriu a porta de novo e entrou na ponta dos pés, como se fosse entrar no quarto de um enfermo grave ou mesmo de um estranho. (KAFKA, 2020, p.49).

Deixou em seu dormitório, variadas possibilidades de alimentos para Gregor, para saber o que ele poderia gostar de comer e água, retirando-se, logo em seguida. Para Gregor, “[...] os alimentos frescos […] não lhe apeteciam, nem mesmo podia suportar seu cheiro […]” (KAFKA, 2020, p.51). Costumeiramente, a irmã passou a deixar restos de comida para Gregor, sem que ninguém da casa percebesse “Certamente eles não queriam que Gregor morresse de fome, mas talvez não suportassem tomar conhecimento da alimentação dele, a não ser por ouvir dizer […]” (KAFKA, 2020, p.52). Custava apenas um diálogo, mas nenhuma tentativa foi feita para saber o que realmente ele necessitava. Pensavam apenas em si mesmos, no medo e na asquerosidade do irmão inseto.


A criada pediu para ser dispensada e outra foi colocada em seu lugar. Para Gregor “[...[ não estava muito claro o que e o quanto sabia do ocorrido […]” (KAFKA, 2020, p.54), mas ela jurou antes de sair que “[...] não revelaria a ninguém o mínimo que fosse.” (KAFKA, 2020, p.54), supostamente dando a entender que ela sabia do ocorrido. Dessa forma, as mulheres da família passaram a fazer algumas tarefas domésticas, como cozinhar e o pai providenciou o dinheiro. Ele foi usando as economias “[...] que tinha salvado cinco anos antes da falência de sua empresa […]” (KAFKA, 2020, p.55) e Gregor nem sabia que existiam:

[...] julgava que não tinha restado absolutamente nada ao pai desse negócio […] a preocupação de Gregor havia sido apenas fazer tudo para que sua família esquecesse o mais rapidamente possível a catástrofe comercial que havia mergulhado a todos numa completa desesperança […] começou a trabalhar com um ardor todo particular […] (KAFKA, 2020, p.55).

Além do mais, a família não gastava todo o dinheiro de Gregor, eles guardavam um determinado montante. Gregor ganhou muito dinheiro e a família se acomodou, o próprio Gregor disponibilizava essa regalia e não se incomodava, gostava de ver a família feliz. Mas, o mais interessante foi o não reconhecimento por todos esses esforços e a ausência de carinho, coisa básica e que não dependia de coisas materiais em troca.


Como mencionado, o pai tinha guardado algumas economias de seu antigo trabalho e estava sustentando a família nesse tempo em que Gregor estava impossibilitado. Mas, a súbita alegria veio a desmoronar quando Gregor pensou no que ocorreria quando esse dinheiro terminasse, ficando atordoado com a ideia de os pais idosos e doentes tivessem que trabalhar, assim como a sua jovem irmã, e voltou a ficar consternado. Passou a ficar pensativo de novo, mas sem saber o que poderia fazer, estava pensando sozinho. A família que ele tanto amava, o afetava mais que tudo.


Sua irmã era a que mais se engajou para ajudá-lo de alguma forma, porém fazia tudo de forma desesperada, com medo de Gregor e isso o afetava, de certa forma: “[...] a visão dele continuava insuportável para ela, e que assim haveria de permanecer […]” (KAFKA, 2020, p.61). A mãe queria vê-lo, exclamando angustiada o seu desejo para o resto da família. Era nítido que a maior barreira era o pai, portanto, com a desculpa de que os móveis eram muito pesados, a irmã pediu ajuda da mãe quando pai saiu de casa, a intenção era esvaziar o quarto para que Gregor pudesse percorrê-lo com maior desenvoltura. Mais uma vez, a boa intenção era pensada individualmente, não havia diálogo entre a família para saber o ponto de vista, os desejos, as indagações de cada um. Em determinado momento, no meio da arrumação, com Gregor escondido, a mãe que pensava que o filho não compreendia mais a linguagem humana, repensou a ideia de sua filha sobre o esvaziamento do quarto. Em meio a discussão, ganhou a ideia da irmã e a retirada dos móveis continuou. Gregor queria que as coisas continuassem em seu quarto, principalmente as mais importantes que o faziam lembrar-se de suas memórias humanas. Mas, os pensamentos e as atitudes de Gregor eram ignorados ou precipitadamente deturpados, sem ao menos ter a mínima curiosidade de perguntá-lo sobre algo, qualquer mínima coisa que fosse.


No desespero da arrumação e com a atitude egoísta da família, na tentativa de salvar seus pertences, o óbvio sucedeu, Gregor foi percebido pela mãe que ficou assustada. A irmã logo a socorreu em mais um de seus devaneios. Nesse instante, o pai chegou e ficou enfurecido com a situação que ele diretamente culpava Gregor. Em meio a um longo tempo de perseguição a Gregor, as coisas desandaram. Gregor estava cansado e:

[...] alguma coisa voou por perto e rolou bem na frente dele. Era uma maçã; a segunda veio voando logo em seguida; Gregor ficou paralisado de susto; prosseguir na corrida era inútil, pois o pai havia decidido bombardeá-lo. (KAFKA, 2020, p.76).

Quando a mãe, já recuperada, percebeu a situação, correu em direção ao seu marido e pediu desesperadamente que o deixasse em paz.


CAPÍTULO III


O ocorrido entre o pai deixou Gregor ferido. Mais um pouco, senão fosse a interrupção da mãe, poderia tê-lo matado. A tentativa de executar Gregor, num momento de fúria, fez o pai, depois de mais calmo, repensar o ato, pois “Gregor era um membro da família que não podia ser tratado como inimigo [...]” (KAFKA, 2020, p.80). No entanto, isso foi sobre o ato violento. A questão-problema de tentar ajudá-lo, ouvi-lo e repensar sobre o isolamento de Gregor não era nem cogitada.


Depois do caos propagado, tudo voltou, aparentemente, a paz e todos da casa conseguiram trabalhos. O pai se tornou funcionário de um Banco; a mãe costurava peças íntimas para uma loja e a irmã trabalhava como vendedora. A família baixou o padrão de vida:

Tudo o que o mundo exige de pessoas pobres, eles o seguiam rigorosamente; de fato, o pai providenciava o café da manhã para os pequenos empregados do banco, a mãe se sacrificava pelas roupas íntimas de pessoas desconhecidas, a irmã corria de cá pra lá atrás do balcão para atender os desejos dos clientes [...] (KAFKA, 2020, p.83).

Conclusão, todos estavam cansados; a empregada (permanente) foi dispensada e trocada por uma faxineira (diarista) idosa e que não se incomodava com o estado de Gregor. Todos da casa se sentiam envergonhados perante a comunidade e parente a situação. Constatando, bem no fundo, como o orgulho residia em seus pensamentos. Devido ao trabalho e ao cansaço do “novo cotidiano”, Gregor cada vez mais ficava abandonado pela família que o tratava com insipidez, pois ele, somente ele, trazia problemas e discussões para a casa.


A família resolveu alugar um cômodo da casa para três homens carrancudos, que passaram a fazer parte da intimidade da casa, inclusive pedindo para modificá-la de acordo com suas vontades. E a família como não queria perder o dinheiro, acatava. A irmã que fazia tempo não tocava o violino, resolveu tocá-lo. Todos a fitavam, cada um a seu jeito: Gregor que admirava quando a irmã tocava o violino chegou a duvidar de sua nova condição: “Ele era um animal, visto que a música o comovia tanto?” (KAFKA, 2020, p.94). Os pais estavam com interesse na apreciação dos inquilinos na filha, mas os inquilinos só fizeram sala para agradar.


Nesse momento, Gregor foi percebido pelos inquilinos e tornou-se, num primeiro momento, a sensação, abafando o sarau improvisado na sala. Logo em seguida, os inquilinos ficaram exaltados e o pai de Gregor esqueceu os bons modos. Com isso, rispidamente os inquilinos resolveram deixar o lugar no dia seguinte, mostrando total depreciação e fazendo ameaças. Depois do ocorrido, a situação de Gregor passou a ser insustentável na casa e a irmã declara: “Não quero pronunciar, diante desse monstro, o nome do meu irmão e, portanto, digo somente o seguinte: devemos tentar nos desembaraçar dele.” (KAFKA, 2020, p.98). Finalmente a família pronuncia seus sentimentos mais profundos e grotescos contra Gregor. Nesse momento, é como se Gregor não existisse mais, a irmã separa a figura humana do irmão e do inseto. O pai apaga tudo que Gregor fez pela família, além de sua condição como filho e explana “Quando temos de trabalhar tão duro, como todos nós, não podemos, ainda por cima, suportar em nossa casa esse eterno tormento.” (KAFKA, 2020, p.99). As palavras são duras, Gregor que tanto trabalho para dar melhores condições a família estava sendo julgado por não trabalhar em um momento infeliz de sua vida. A atitude da irmã, que sempre pareceu a mais solícita, foi um golpe. Ela culpa Gregor por tudo, além disso, mais uma vez o separa da figura humana:

É preciso somente que o senhor se livre da ideia de que é Gregor. Nós acreditamos nisso por muito tempo e é exatamente nisso que reside nossa infelicidade. Mas como é que essa coisa pode ser Gregor? Se fosse ele, teria compreendido há muito tempo que o convívio de seres humanos com semelhante animal não é possível e teria partido espontaneamente. A partir de então, não teríamos irmão, mas poderíamos continuar vivendo e honrar a memória dele. Mas, assim, esse animal nos persegue, expulsa os inquilinos, pretende claramente ocupar todo o apartamento e nos fazer pernoitar na rua. (KAFKA, 2020, p.100).

Subitamente, diante dessa humilhação e dor, Gregor pensava na possibilidade de ir embora, no entanto, não deu tempo, sua hora tinha chegado. Depois de tanta angústia, Gregor morreu, foi encontrado pela faxineira no dia seguinte à discussão. Mais uma vez, as reações são espantosas. Para faxineira um mero inseto e “[...] empurrou o corpo de Gregor com a vassoura […]” (KAFKA, 2020, p.105). O pai disse em bom tom “[...] agora podemos dar graças a Deus.” (KAFKA, 2020, p.105). Paulatinamente, depois da morte de Gregor, a vida da família foi voltando ao “novo normal”. Diferente da vida que Gregor proporcionara com todo seu esforço, quase que exclusivo para com sua família, eles estavam felizes e fazendo planos para o futuro, pois Gregor já não era mais o empecilho.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


O livro “A Metamorfose” do escritor Tcheco Franz Kafka relata de forma muito intrigante temas, como: a sociedade do trabalho (como a relação saúde-trabalho e valor-trabalho), o egoísmo, o orgulho, as relações familiares e a desconstrução da família conservadora perfeita, a dificuldade de diálogo entre as pessoas, a solidão humana e o desprezo para com o outro.


Tudo isso, sendo construído através de uma escrita que mistura questões habituais (trabalho e família) e irrealismo (a transformação em animal). Kafka nos faz pensar sobre o que é o trabalho na sociedade (para que serve? para quem interessa? até quando uma pessoa que trabalha significa algo?). Uma pessoa que trabalha arduamente, se esquecendo de si e pensa nos demais. Quando tudo isso acaba ou é momentaneamente afetado, essa pessoa ainda vai ser considerada? Ou irá virar um fardo? Ajudar ou julgar? Muitos são os questionamentos levantados que podem ser discutidos sobre as relações de trabalho, sua influência e relevância para a sociedade, com o auxílio de inúmeros autores (clássicos e contemporâneos) que abordam o tema, como o pensador alemão Karl Marx e o sociólogo brasileiro Ricardo Antunes.


Existem outros temas a se destacar que estão relacionados às relações familiares, patriarcais, conservadoras e de classe, assim como a ausência de diálogo e de afetos. Quem é você na estrutura da família? Como se dão os relacionamentos, as hierarquias, as funções, os sentimentos etc.? Como lidar com os momentos de paz e luta? Como lidar com personalidades díspares, sem diálogo e afeto? Você conhece a pessoa que convive com você? Kafka desconstrói a ilusão da família perfeita e traz à tona os problemas de sua convivência.


O ponto mais complexo que Kafka nos traz é o trato entre o humano e o animal. Se você é considerado "menos humano” e mais próximo ao animal, imediatamente você é julgado e tratado como animal, como um ser irracional, não cidadão. Já tivemos no decorrer da história abordagens como esta, como um dos princípios de justificativa da separação homem primitivo e homem civilizado, a crueldade da escravidão e do nazismo etc. Aquele que desvirtua dos padrões é ligado ao animal. Mas, e os animais? Se nos colocarmos no lugar dos animais, poderíamos dizer que existem animais mais humanizados (como os domésticos, por exemplo) e outros menosprezados. Tudo é um julgamento para justificar a maldade com o outro, mas ninguém se vê no lugar do outro um dia. Talvez, a escrita de Kafka nos faz repensar as nossas atitudes com o outro, a dignidade do ser, o respeito às diferenças e a construção do diálogo, antes de decisões narcisistas, egoístas e preconceituosas.

Suzana Camillo Marques


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS


KAFKA, Franz. A Metamorfose. 1 ed. Tradução de Ciro Mioranza, São Paulo: Lafonte, 2019.


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